A NOVA ERA:APLICAÇÕES CLÍNICAS DA NUTRIGENÉTICA PODEM TRAZER BENEFÍCIO À POPULAÇÃO

Já dizia Carlos Drummond de Andrade: “Ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho ímpar”. Os avanços científicos vêm permitindo a melhor compreensão das diferenças existentes entre os indivíduos. Acreditava-se que o Projeto Genoma, concluído em 2003, seria a chave para todas as respostas referentes ao metabolismo, doenças, gostos, personalidade, etc, de cada ser humano. Porém muito além de ‘decifrar’ nosso código genético, é necessário entender que há muitas variáveis envolvidas. O genoma é 99,9% idêntico entre os indivíduos. O 0,1% restante equivale a 200mil variações de polimorfismos genéticos que conferem as diferentes características de cada pessoa, que chamamos de fenótipos.

A nutrigenômica é o estudo de como os nutrientes ingeridos atuam na modulação da expressão gênica. Hoje em dia já se sabe que nascemos com uma determinada “programação genética” e que há uma interação entre gene-nutriente. Isso já se inicia na vida intra uterina, onde dependendo da ingesta nutricional materna (e consequentemente do feto) pode haver mudanças na resposta metabólica daquele indivíduo sendo gestado quando ele se tornar adulto. Temos um exemplo histórico disso no “Inverno da Fome” na Holanda, que ocorreu entre 1944 e 1945 durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse episódio o exército alemão havia dominado o oeste da Holanda e cortou o suprimento alimentar para a população civil por 7 meses levando a morte de 22mil holandeses. Durante esse período havia mulheres que estavam grávidas e tiveram restrição energético-protéica extrema. Observou-se que aquelas subnutridas no primeiro e segundo trimestre de gestação tiveram bebês que se tornaram adultos obesos, dislipidêmicos e de alto risco para doenças cardiovasculares. Já as que se encontravam no terceiro trimestre da gestação tiveram filhos que se tornaram adultos com baixo peso e intolerância a glicose.

A nutrigenética é o estudo de como a constituição genética de uma pessoa afeta sua resposta a determinada dieta. A necessidade e metabolização de nutrientes varia de um indivíduo para outro. Por que algumas pessoas fazem uma dieta restrita em carboidratos e têm ótimos resultados e outras pessoas que realizam exatamente a mesma dieta têm muitas vezes um resultado diferente? Isso se deve, dentre outros fatores, a variações no DNA que são chamados de SNPS (polimorfismo de nucleotídeo único).

SNPS são variações de bases nitrogenadas (adenina, guanina, citosina, uracila e tiamina) presentes em pelo menos 1% da população (menos que isso são considerados mutação). A presença de determinados SNPS pode influenciar na forma como determinado alimento é metabolizado e como alguns absorvem mais nutrientes específicos que outros. Também influenciam na resposta e desempenho de indivíduos a determinada atividade física.

Através do estudo do DNA é possível fazer uma ‘leitura’ identificando alguns SNPS que quando presentes predispõem a pessoa a determinada doença ou alteração metabólica. Baseado nisso algumas empresas estão estudando os SNPS mais prevalentes que interferem no metabolismo de nutrientes e estão propondo uma dieta direcionada. Alguns trabalhos científicos mostram resultados satisfatórios das dietas personalizadas com o uso da nutrigenética. Isso poderá permitir uma resposta otimizada e diferenciada ao suprir o organismo de acordo com o próprio metabolismo e ‘tendência genética’, podendo trazer benefícios a saúde. Mais informações em www.nutritionandgenetics.org .

Referências Bibliográficas:
1. Sales NMR, Pelegrini PB, Goersch MC. Nutrigenomics: definitions and advances of this new science. J Nutr. Metabol – 2014; 202759: 1-6.
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4. Stewart-Knox et al. Attitudes toward genetic testing and personalised nutrition in a representative sample of European consumers. Br J Nutr. 2009. Apr: 101(7): 982-9.

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